Valor Econômico: Covid-19 e petróleo barato podem atrasar abertura do gás

Crise econômica traz incertezas para a oferta e a demanda pelo insumo neste momento

Por André Ramalho

RIO DE JANEIRO, 06/04/2020 – O efeito combinado da crise econômica desencadeada pela disseminação do novo coronavírus e a queda dos preços do petróleo no mercado internacional tornou mais remota a chance de a abertura do mercado brasileiro de gás natural avançar neste ano, por meio da chamada pública que permitirá concorrentes da Petrobras contratarem capacidade no gasoduto Bolívia-Brasil (Gasbol). A expectativa é que as incertezas que pairam tanto do lado dos ofertantes quanto dos consumidores retardem a velocidade da abertura.

Como parte do compromisso com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), a Petrobras cedeu um terço da capacidade do Gasbol – um volume de 10 milhões de metros cúbicos diários (m3 /dia) – para terceiros. A chamada pública para contratação dessa capacidade, aberta pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) no meio da crise econômica, foi suspensa e não há prazo para ser retomada neste momento.

Segundo o gerente de gás da Associação dos Grandes Consumidores de Energia (Abrace), Adrianno Lorenzon, a missão de conseguir fechar um contrato de importação de gás boliviano ainda neste ano, em meio à transição do governo do país vizinho, já seria difícil. Com a crise econômica atual, a situação piorou. Fica desafiador para indústrias e distribuidoras definirem, no momento, o quanto vão consumir e, consequentemente, que capacidade pretendem contratar nos gasoduto. “[Um insucesso na chamada neste ano] Pode postergar por mais um ano a abertura do mercado”, afirmou o presidente da entidade.

É esse cenário que leva o diretor-executivo da Gas Energy, Rivaldo Moreira Neto, a avaliar que a abertura do mercado passou a conviver com um “novo elemento de incerteza”, tanto na demanda quanto na oferta. “O cenário de preços baixos do petróleo pode acabar afetando projetos de mais longo prazo das petroleiras, e consequentemente, a curva do crescimento da oferta de gás. Isso não ajuda o movimento de abertura. O mercado se abre quando há alguém da demanda fechando contrato com alguém da oferta. E hoje há incertezas quanto à atividade econômica que impactam diretamente a expectativa de consumo”, afirma. A cotação do Brent, referência mundial, caiu cerca de 66% no primeiro trimestre. Só em março, o barril apresentou queda de quase 50%.

Um exemplo dessa incerteza sobre oferta e consumo é que os leilões de energia, que poderiam contratar termelétricas a gás importantes para garantir o crescimento da demanda, nos próximos anos, estão suspensos por ora. “O que vai dizer se o coronavírus vai impactar em definitivo a abertura é o tempo de fato que essa crise vai permanecer”, completou o diretor da Gas Energy.

Para o diretor de estratégia e mercado da Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás), Marcelo Mendonça, é difícil imaginar que consumidores livres vão se aventurar a fechar contratos neste momento. Ele destaca que a crise atual evidencia, para as indústrias interessadas em migrar para novo modelo, os riscos envolvidos para quem sai do ambiente cativo.

“Há um risco inerente que os consumidores livres vão assumir, que são as cláusulas de ‘take-or-pay’ e ‘ship-or-pay’ [pagamento mínimo pela disponibilidade dos gasodutos]. Quando a empresa sai de dentro do guarda-chuva do portfólio da distribuidora, ela assume sozinha a exposição a essas cláusulas. E na situação das incertezas que vivemos, quem vai assumir esse risco?”, questiona o presidente da Abegás.

O Valor apurou que, em meio à atual crise econômica, as distribuidoras de gás recorreram às cláusulas de força maior para pedir a revisão das penalidades dos seus contratos de fornecimento com a Petrobras.

Lorenzon garante que, embora a crise traga elementos de incerteza, o interesse das indústrias pela abertura está mantido. “Nesse momento deve estar todo mundo olhando para o mercado livre de gás como opção para a redução de custos”, afirma o representante dos grandes consumidores.

Segundo ele, a indústria espera que a abertura do mercado brasileiro se dê, nos próximos dois anos, por meio de três frentes: a partir da importação de gás da Bolívia; da compra de gás de sócias da Petrobras no pré-sal, que por determinação do Cade não poderão mais vender seus volumes para a estatal; e por meio da importação de gás natural liquefeito (GNL).

A partir do próximo ano, a expectativa é que comecem a operar os primeiros terminais de regaseificação privados do país: o da Bahia, que será arrendado pela Petrobras, e o da Golar instalado no Sergipe. Para quem quiser apostar na importação, o cenário de preços é positivo.

A consultoria especializada Rystad Energy estima que, embora a demanda mundial de gás não esteja sendo afetada pela pandemia na mesma medida que o petróleo, os preços do GNL atingirão médias mais baixas do que as esperadas em todos os mercados. Os preços já estavam em baixa antes mesmo do choque do petróleo. A expectativa, agora, é que serão necessários anos até que o efeito do coronavírus se dissipe totalmente.

A Rystad reduziu em 2,8% as projeções de preços no Henry Hub (referência nos EUA, principal supridor de GNL do Brasil) para 2021 – para US$ 2,43 o milhão de BTU (unidade térmica britânica). A consultoria prevê que a relação entre oferta e demanda ficará mais apertada entre 2024 e 2025, mas que em seguida haverá um aumento dos preços entre 2026 e 2027.

Para que o Brasil incorpore esses benefícios, Lorenzon cobra sinais mais claros sobre a abertura das unidades de processamento e dos gasodutos. Ele lembra que a ANP não informou, até o momento, o cronograma das chamadas públicas para contratação das capacidades dos gasodutos do Sudeste e Nordeste. Moreira, da Gas Energy, afirma que existem negociações avançadas no mercado livre, mas que os contratos não foram fechados porque ainda pairam algumas indefinições. Ele cita não só a falta de previsão sobre o acesso aos gasodutos, mas também a falta de regulamentação da figura do supridor de última instância – responsável por garantir a oferta aos consumidores que por algum motivo não conseguirem ser supridos por um dos agentes do mercado livre.

“Faltam elementos de base para que tanto a indústria quanto o supridor tomem uma posição firme”, diz o consultor, que acredita que o mercado livre começará a se consolidar entre 2021 e 2022. “O coronavírus pode reduzir a velocidade, mas os fundamentos da abertura permanecem”, afirma.

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