Matéria Valor Econômico 07/02/2017 Estrangeiros veem oportunidade em GNL no Brasil

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Estrangeiros veem oportunidade em GNL no Brasil

Hoje concentrado nas mãos da Petrobras, o setor de gás natural liquefeito (GNL) tem atraído a atenção de outras empresas no Brasil. Num momento em que a petroleira acena para a venda de ativos na área e o governo discute ajustes no marco regulatório do gás, ao menos quatro grupos estrangeiros já manifestaram interesse em construir novos terminas de regaseificação no país ou acessar as unidades da estatal para importar cargas de GNL. O setor, no entanto, convive com barreiras que podem dificultar os novos projetos.

Entre as interessadas em investir no país, o caso mais recente é o da norueguesa Norsk Hydro. A companhia assinou em janeiro uma carta de intenções com o governo do Pará para construir um terminal no Estado. O objetivo é importar gás para substituir parte do consumo de óleo combustível no refino de alumina da Alunorte. Se concretizado, o projeto funcionaria como âncora para desenvolvimento do mercado paraense.

Em 2016, as coreanas Kogas e Grupo Posco E&C e Daewoo já haviam sinalizado a intenção de investir US$ 600 milhões na instalação de um novo terminal no Ceará. A unidade, com capacidade para regaseificar 12 milhões de metros cúbicos diários de gás, substituiria o atual terminal de Pecém, que será desativada pela Petrobras.

Sócio diretor da Gas Energy, Marco Tavares, explica que o aumento do interesse das empresas no Brasil se dá em meio às expectativas de sobreoferta no mercado mundial. As cargas importadas de gás liquefeito, que custavam em média US$ 14 o milhão de BTU em 2013 e 2014, caíram para US$ 6 o milhão de BTU em 2016, segundo o Ministério de Minas e Energia.

“Muitas empresas têm buscado novos mercados para desenvolver e, assim, absorver o excesso de oferta internacional. Os mercados tradicionais já estão saturados”, explica Tavares.

Segundo projeções da consultoria Energix Strategy, o mercado global de GNL deverá passar por um período de excesso de oferta e de preços mais baixos até pelo menos 2021/2022.

Outra companhia que tem planos de importar GNL no Brasil é a Total, que em dezembro fechou uma parceria com a Petrobras para compartilhar o uso do terminal da Bahia, de 14 milhões de metros cúbicos diários. Na mesma ocasião, a francesa comprou 50% das usinas baianas Rômulo de Almeida (138 MW) e Celso Furtado (186 MW).

O caso mais concreto entre as interessadas no país é o da Golar LNG, que se uniu à brasileira GenPower para construir um novo terminal de GNL no Sergipe. A unidade vai abastecer a termelétrica Porto de Sergipe (1,5 gigawatts), negociada no leilão A­5 de 2015 e prevista para operar a partir de 2020, mas as obras da usina ainda não saíram do papel.

Tavares destaca que o cenário atual, de falta de leilões de energia e retração no consumo nas indústrias, é pouco favorável. Ele lembra também que o setor possui, ainda, algumas barreiras intrínsecas que dificultam novos terminais. “O setor de gás no Brasil é complexo. O modelo de geração termelétrico é flexível e não existe um mercado secundário para absorver o gás que sobra quando as usinas não despacham. Além disso as termelétricas geralmente absorvem apenas um terço da capacidade dos terminais, que precisam buscar outros clientes, num momento de retração econômica, para operar no ponto ótimo”, diz.

Um exemplo da dificuldade de se sustentar novos projetos no país é o das unidades de regás do grupo Bolognesi, que abastecerão as térmicas de Rio
Grande (RS) e Novo Tempo (PE). A empresa vem enfrentando dificuldades para financiar as usinas, leiloadas em 2014 e, sem clientes alternativos, os
terminais também correm o risco de não sair do papel. A diretora da Energix, Ieda Gomes, espera que a iniciativa do governo de rever o marco regulatório do gás, a partir do programa Gás Para Crescer, simplifique o setor. “Existem barreiras regulatórias de acesso dos consumidores aos terminais existentes. Na Lei do Gás, não existe obrigatoriedade para que o proprietário do terminal dê acesso a terceiros. Assim o proprietário pode negar acesso ainda que o terminal tenha capacidade ociosa”, afirma Ieda, consultora sênior da Fundação Getúlio Vargas (FGV).