A energia de um mundo em transição

A redução das emissões dos gases de efeito estufa é tema recorrente nas mais diversas mesas da política global, porém, as primeiras discussões datam ainda da década de 1970, quando tivemos a Conferência de Estocolmo (1972). Certamente, o apelo desta agenda era menor, dado que ainda se tinha pouco conhecimento sobre os impactos reais da atividade econômica sobre o clima do mundo.

O primeiro grande marco na proteção climática foi dado pelo Protocolo de Kyoto, que introduziu o comércio de carbono e tinha como principal objetivo reduzir o avanço do aquecimento global. O ano era 1997 quando, em Kyoto, no Japão, as primeiras decisões sobre como e em que contexto a proteção do clima deveria prosseguir. No entanto, o acordo construído naquele momento só entrou em vigor 15 anos depois.

Em 2015, outro importante passo foi dado na agenda do combate às mudanças climáticas: o Acordo de Paris, que entrou em vigor em 2016 e substituiu por definitivo o Protocolo de Kyoto a partir de 2020 [1]. Nesse momento, foi decidida uma meta objetiva para conter o aumento da temperatura média do planeta abaixo dos 2º C, com compromisso de diminuir para até 1,5 ºC [2].

Mesmo com o avanço das discussões dos últimos anos, que envolve não apenas governos, mas também grandes corporações privadas com presença global, as medidas adotadas até aqui não são suficientes para atingir os objetivos traçados em Paris na conferência de 2015. Segundo declaração da Agência Internacional de Energia (IEA), as promessas climáticas dos governos até o momento – mesmo se totalmente cumpridas – ficariam bem abaixo do que é necessário para zerar as emissões globais de dióxido de carbono (CO2) líquidas e limitar o aumento da temperatura global a 1,5 ° C [3].

Figura 1. Número de projetos no mundo para a redução de emissões.
Fonte: IEA [4]. Elaboração Gas Energy.

Como pode ser visto na Figura 1, desde a assinatura do acordo de Paris, houve um crescimento bastante acelerado na criação de metas pelos países, movimento que foi intensificado recentemente pelo retorno dos Estados Unidos ao pacto climático. Segundo a IEA [4], a partir de 2021, 44 países e a União Europeia se comprometeram a atingir uma meta de zero emissões líquidas de gás carbônico, que juntos representam cerca de 70% do CO2 emitido e do PIB global. Destes, dez países tornaram o cumprimento de sua meta uma obrigação legal, oito estão se propondo a torná-la uma obrigação legal, e os demais fizeram suas promessas em documentos oficiais [4].

A China é o país com maiores emissões mundiais de CO2 equivalente¹ e lidera os investimentos em ações de mitigação, seguida dos Estados Unidos (Figura 2).

Figura 2. Investimentos realizados para transição energética por país, em 2020.
Fonte: Bloomberg [7]. Elaboração Gas Energy.

Ainda que em diferentes níveis, os dados apontam para possível convergência no investimento em soluções para mitigação dos gases de efeito estufa. No entanto, ainda é tímida a movimentação de alguns países para desenvolvimento de tecnologias críticas para o sucesso do esforço contra o aquecimento climático: Captura, Utilização e Armazenamento de Carbono (CCUS) e para a própria produção em escala do hidrogênio, por exemplo.  

Para onde estamos indo?

Apesar dos avanços, há um longo caminho pela frente, como pode ser verificado nos dados que compilam a evolução das emissões de CO2 em todo o mundo. Ainda não foi percebida uma redução significativa das emissões (Figura 3), apesar da clara diminuição do ritmo de crescimento observado nas últimas duas décadas.

Figura 3. Evolução histórica das emissões de CO2 equivalente no mundo.
Fonte: Our World in Data [5]. Elaboração Gas Energy.

A própria IEA afirma [4] que as principais medidas para atingir as metas de et zero emissions até 2050 consistem no investimento em fontes renováveis eólica e solar, aumento da eficiência energética, captura, utilização e armazenamento de carbono (CCUS) e eletrificação. Esta última se refere à substituição do uso de fontes de energia fósseis por energia elétrica, que por sua vez, deve ser gerada por fontes com baixa emissão de CO2eq – caso contrário, não haveria qualquer efeito prático.

Ainda que em menor escala que a eletrificação e outras tecnologias como a captura de carbono, o hidrogênio deve ocupar uma parcela relevante no esforço de descarbonização da matriz energética global, principalmente a partir de 2030. (Figura 4).

Figura 4. Redução de emissões por medida de mitigação até 2050.
Fonte: IEA [4]. Elaboração Gas Energy.

Para que o cenário apresentado acima se realize, no entanto, será necessário que o investimento anual em energia passe de pouco mais de US$ 2 trilhões globalmente (média nos últimos cinco anos), para quase US$ 5 trilhões até 2030 e para US$ 4,5 trilhões até 2050 (Figura 5). O investimento nas tecnologias baseadas em hidrogênio, segundo o mesmo cenário da IEA [4], pode corresponder a cerca de 10,5% do total em 2050, o que equivale a US$ 476 bilhões, valor que hoje equivale a quase o PIB da Argentina ou cerca de um quinto do PIB brasileiro em 2020 [6].

Cabe ressaltar que, mesmo em menor escala, combustíveis fósseis devem continuar a ocupar papel representativo na matriz energética mundial, detendo parte dos investimentos na área de energia até 2050 (cerca de US$ 288 bilhões anuais segundo a IEA). Cenário reforçado pelo comportamento visto na maior parte das empresas produtoras de óleo e gás, que estão procurando diversificar seus negócios, comprometidas em reduzir as emissões dos seus processos, mas ainda investindo em novos projetos exploratórios.

Figura 5. Investimentos anuais por área tecnológica em energia.
Fonte: IEA [4]. Elaboração Gas Energy.

Considerações Finais

Os compromissos de mitigação de emissões já assumidos reforçam a tendência de comprometimento cada vez maior de empresas e países. Nos últimos dois anos, foram muitos os projetos anunciados publicamente com meta central de alcançar emissões líquidas de CO2 iguais a zero até 2050.

Para atingir tal marca, os caminhos apontados nos estudos parecem convergir na ideia de que o hidrogênio e CCUS devem ocupar papel de extrema relevância, associados, é claro, à continuidade no desenvolvimento de energia eólica e solar e na eletrificação da matriz energética dos mais diversos setores industriais.

O alto valor dos investimentos para que barreiras tecnológicas sejam vencidas é, talvez, o principal desafio para que o cenário desejado se concretize. Além dos recursos envolvidos, a transição a uma matriz energética limpa em escala global dependerá também de forte mudança comportamental, o que poderá se apresentar como barreira igualmente desafiadora.


¹ 1 kg de CO2 vale 0,2727 kg de carbono equivalente, já que é considerado apenas a massa das moléculas de carbono em um quilo de CO2. O Carbono Equivalente é calculado através do valor do GWP relativo multiplicado por 0,2727. O Potencial de Dano Global (Global Warming Potential – GWP) nos permite saber o quão prejudicial é a emissão de uma mesma quantidade de cada um desses gases.

Referências

[1] GLOBO. Protocolo de Kyoto foi marco na proteção climática, mas insuficiente. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/02/16/protocolo-de-kyoto-foi-marco-na-protecao-climatica-mas-insuficiente.ghtml. Acesso em: 06 ago. 2021.

[2] NAÇÕES UNIDAS BRASIL. Acordo de Paris sobre o Clima. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/node/88191. Acesso em: 06 ago. 2021.

[3] IEA. Pathway to critical and formidable goal of net-zero emissions by 2050 is narrow but brings huge benefits, according to IEA special report. Disponível em: https://www.iea.org/news/pathway-to-critical-and-formidable-goal-of-net-zero-emissions-by-2050-is-narrow-but-brings-huge-benefits. Acesso em: 06 ago. 2021.

[4] IEA. Net Zero by 2050: A Roadmap for the Global Energy Sector. Disponível em: https://iea.blob.core.windows.net/assets/ad0d4830-bd7e-47b6-838c-40d115733c13/NetZeroby2050-ARoadmapfortheGlobalEnergySector.pdf. Acesso em: 06 ago. 2021.

[5] OUR WORLD IN DATA. CO2 emissions. Disponível em: https://ourworldindata.org/co2-emissions. Acesso em: 06 ago. 2021.

[6] FUNAG. Maiores Economias do Mundo. Disponível em: http://www.funag.gov.br/ipri/images/analise-pesquisa/tabelas/top15pib.pdf. Acesso em: 06 ago. 2021.

[7] BLOOMBERG. Energy Transition Investment Trends: Tracking global investment in the low-carbon energy transition. Disponível em: https://assets.bbhub.io/professional/sites/24/Energy-Transition-Investment-Trends_Free-Summary_Jan2021.pdf. Acesso em: 06 ago. 2021.

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